Pequeno relato sobre o caos

Reparei que sobre um banco mais a frente havia um livro. Será que alguém havia deixado ali? Resolvi conferir antes que algum outro passageiro tivesse a mesma ideia. Capa preta. Mostrava a silhueta de uma cantora com uma margarida vermelha presa ao cabelo e uma cortina de teatro (também vermelha) recolhida de lado.

Na sala de reunião, demorei um tempo até conseguir prestar total atenção no que estávamos conversando. Só conseguia pensar no livro que estava na minha mochila. Pressentia que tinha coisa boa ali.

Era quarta-feira e eu desci as escadas do metrô correndo. Estava atrasado pra reunião e sabia que em 40 minutos não chegaria até o escritório. Ainda mais com as baldeações e as longas caminhadas pela Linha 4.

Ao ver o movimento de pessoas contrário ao meu, sabia que havia um trem parada na plataforma. Dei uma corridinha pra poder alcançar. Não havia muita gente no vagão e me sentei ao fundo. Foi quando o vi. Não sabia se era ideia do próprio autor ou uma ação de marketing da editora, mas encontrar um livro ali, no metrô, propositalmente deixado, mudou meu dia.

Um livro. Um bilhete. Um Email.

Seria a prova de que o autor estaria envolvido na questão?. Endereço de Email? Talvez o autor quisesse que se escrevesse algo pra ele. Talvez não.

O provável começo de tudo é na verdade o fim. O escritor, Mario Garrone, foi ousado ao revelar que o começo já seria o final de toda a história. Mas só se saberia disso ao fim das páginas.

O livro começa contando a sobre Doroti, quarenta anos a menos que o Dr. Alcibíades, com oitenta e três. Doroti acaba de fazer uma consulta com uma vidente e nem imagina como o Dr. Alcibíades vai entrar na história. Na sua história e na nossa, aliás.

Qual seria a motivação de ambos? A moça precisava de ajuda e o Doutor não queria desassossego na vida.

O mérito do autor creio não ser a história propriamente dita, mas sim o ritmo em que é contada. São histórias paralelas e atemporais que se cruzam, só não se sabe muito bem como, nem quando. E está ai o grande a beleza do conto. Temos aquela sensação onisciente, mas no fundo não sabemos de nada. CAOS.

Por não se ter a exata ciência dos fatos nem quando ocorrem, me vi instigado a ler o outro capítulo e depois o outro, e o outro e quando menos se espera… BUM. O livro acaba. Eu: realizado!

Da próxima vez em que pegar o metrô, preste atenção. O “Pequeno relato sobre o caos” pode estar ao seu lado. Talvez tenha sido o autor, ou talvez tenha sido eu que passei um pouquinho de caos adiante.

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Uma resposta para “Pequeno relato sobre o caos

  1. Mario Garrone

    Olá, Eder. Fui eu mesmo, o autor, que deixei o livro no banco do metrô. Deixei outros tantos e ainda vou deixar mais alguns. Sabe por quê? Porque a editora que publicou o livro é portuguesa e não está fazendo muito esforço, eu acho, para distribuí-lo no Brasil. Achei que seria uma forma de divulgar e surpreender as pessoas. Procuro sempre os vagões mais vazios e deixo um livro. Os funcionários do metrô devem ter me visto pelas câmeras indo e voltando, indo e voltando, e não devem ter entendido nada. Temi até, embora não estivesse fazendo nada errado, que alguém viesse falar comigo pela minha atitude inusitada. Mas não houve problema. Obrigado pelo seu comentário. Bom saber que você se interessou pelo livro e que ele tenha sido uma boa companhia. As suas observações mostram que os livros que deixei no metrô podem cair nas mãos certas. Gostaria de usar seu espaço para dizer que o livro Pequeno relato sobre o caos pode ser encontrado na livraria Cultura, na livraria Roteiro, pela internet, e na livraria do Espaço Itaú de Cinema, na Augusta. Mais uma vez obrigado.

    Mario

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